"Prometo. Mesmo que eu não vá na festa, eu dou um jeito de te ver pra te dar um abraço."
Eu não estava muito afim de ir. Ou melhor, estava, mas não estava. Nos primeiros momentos, era mais por consciência, da Cinthya ter pago meu ingresso. No fim, me questionei se iria perder uma festa em que provavelmente iria me divertir apenas pra evitar confusão, sendo que ela saía lá, e eu engolia seco. Decidi que não. Me animei.
(...)
Lá estava eu, em frente à boate. Estava encostada na parede esperando a Cinthya aparecer, do lado da Raphaela e da Emi. As duas estavam impacientes pra entrar.
- Podem ir na frente, se quiserem. - objetei, quando percebi as duas procurando com os olhos.
- Não, a gente espera. - Raphaela respondeu, em seguida acrescentando. - Você sabe que a Ity vem, né?
- Quê? - perguntei, pra ganhar tempo e pensar em uma resposta. Eu havia escutado bem o que ela havia dito.
- Se você ficar com a Ity eu quebro sua cara. - Emi disse sorrindo, mas pude sentir a ameaça em seu tom.
- Eu não vou ficar, eu namoro. - argumentei, me sentindo ligeiramente incomodada, por algum motivo que eu não entendia.
- Olha lá, a Cinthya. - Raphaela apontou.
- E a Iasmim. - Emi completou, fazendo uma careta de azedume.
Fiquei alguns segundos parada, sem decidir se eu olhava ou não. Decidi por uma olhada rápida, avistando-a de relance, mas decidida a não parecer tão interessada. Voltei a olhar pros meus próprios pés.
- Por que a Ity não vem aqui cumprimentar as amigas? - Raphaela quis saber.
Cinthya ligou para ela para que ela viesse nos cumprimentar. E lá veio ela, me fazendo desviar o olhar para que não a olhasse diretamente. Na verdade, so a olhei nos olhos na noite seguinte, pouco antes de nos despedirmos.
- Oi! - ela disse, quase secamente, me dando um rapido beijo no rosto.
Eu não lembro o que respondi. Porque no instante seguinte, ela se virou com maior empolgação para cumprimentar Raphaela. Fiz cara feia internamente.
- Oooi, Rapha!
Seria uma artimanha para chamar minha atenção? Ou ela estava simplesmente interessada na Raphaela, como sempre demonstrava no grupo? Suspirei. Raphaela não trairia a Bea por nada nesse mundo. Pelo menos eu não veria nada que me chatearia.
(...)
Eu me mantive longe. Dançava com a Emi para que ela deixasse a Iasmim mordida. Eu mantinha meu olhar distante, olhando pro outro lado, quando ela estava por perto. Eu não sabia como nem porque ela mexia comigo, mas eu não ia me permitir fazer uma merda. Fui comprar bebida. Raphaela e Emi foram comigo.
- Eu mandei a Ity disfarçar a raiva. Ela perguntou se tava tão na cara assim. - Raphaela contou.
- Raiva do que? - perguntei, embora tivesse um palpite.
- Porque você tava dançando com a Emi! - Raphaela me olhou como se eu fosse demente. Talvez eu fosse mesmo.
- Eu só estava dançando! - objetei.
- Ela quer você. - Emi disse, sem rodeios. - Mas ja sabe, né? Se você ficar com ela, eu...
- Já sei! - eu cortei, começando a ficar irritada.
(...)
Bêbada? Ainda não! Mas eu sem dúvidas dançava com leveza, agora sem me importar com as ditas confusões silenciosas que estavam acontecendo ali. Cinthya virou pra mim:
- Você quer beber alguma coisa?
- Pode ser! - respondi, em duvida se ela iria me pagar algo ou se apenas iria me pedir pra ir comprar.
- Ity! - ela chamou. - Vai ali com a NN comprar bebida.
- Você quer bebida? - ela perguntou, em seguida estendendo a mão. - Vem!
Dizer que eu hesitei seria mentira. Eu queria aquele contato. Estendi a mão e a acompanhei pra fila, ficando atrás dela. Eu não sei o que deu em mim. Decidi testar seus limites. Provocar.
Encostei o corpo o máximo possível sem de fato encostar-lhe e respirei fundo, tentando sentir o cheiro. Era bom. Na verdade, talvez até mais do que bom. Estendi as mãos e arranhei levemente suas pernas, dando um pequeno sorriso. Ela me olhou pelo canto dos olhos e meu sorriso se alargou. Eu não estava normal. Não mesmo.
(...)
Eu estava completamente bêbada. Mentira. Nem tanto. Mas estava consideravelmente agora. Eu não sabia aonde eles estavam. Fui no fumódromo. Achei.
- Oi! - saudei animada.
- Mari, vem cá... - Iasmim passou os braços ao redor dos meus ombros e me puxou. - Deixa eu falar com você... - ela fez uma pausa. - Olha, eu vou ser bem direta...
- Vem cá! - João, o amigo delas, me puxou pra perto da Ity e me pôs diante dela. - Eu duvido você dar um beijo nela agora!
Fiz força pra me manter firme no chão. Eu estava bêbada o suficiente para no dia seguinte fingir que não lembrava de nada. Mas a pergunta era: eu iria querer fingir que não aconteceu nada? Hesitei:
- Eu namoro.
- Ela esta aqui? - João quis saber, enquanto eu olhava para qualquer canto, menos pra ela.
- Não! - respondi o óbvio. - Mas...
- Eu dou meu cu se vocês se beijarem agora! - ele insistiu, batendo o pé no chão.
Fechei os olhos por alguns segundos. Lembrei daquele cheiro. Do sorriso. Do jeito tímido. Me adiantei em passos rápidos, quase agressiva. Pus a mão direita em sua cintura e a esquerda na nuca. Apesar de toda a agressividade, o beijo foi leve e doce, encaixando como uma peça de quebra cabeça. Os lábios dela se moldaram aos meus e meu coração acelerou, me fazendo puxá-la pra mais perto de mim. Eu poderia beijá-la o resto da noite.
(...)
A noite passada havia sido apenas flashes na minha cabeça. Eu havia ficado com ela o resto da noite. Havia rolado ate mais do que beijos. Fora impossível pra mim segurar o tesão. Sorri quando lembrei da minha indignação por termos sido interrompidas. Elas estavam todas no shopping. Me esperando. Suspirei.
Fui andando debaixo de um sol escaldante, que não ajudou em nada meu humor. Devo ter chegado com a cara mais feia do que sei la o que. Demorei um pouco, mas acabei ficando mais de boa. Mas ainda olhava para todo lugar, menos para ela.
Eles queriam ir ao cinema. Eu não estava nem um pouco afim. Não era por nada. Mas eu não estava. Me sentia mal pelo excesso de bebida na noite passada. Sequer havia comido. Naquela tarde, eu permaneci na mesa, divertindo-me com seus ataques de timidez, falando coisas propositalmente para que ela ficasse vermelha. Eu achava a coisa mais linda do mundo. Apesar de não olhá-la diretamente nos olhos. Eu sabia que ela estava esperando algo. Mas eu não podia corresponder a isso.
- Vamos no cinema, Mari. - Iasmim disse, pela décima vez, em um momento em que estávamos apenas eu, ela e o João na mesa.
- Eu não to afim de assistir filme. - respondi, mexendo distraída no celular.
- Mas você não vai assistir nada. - ela disse, cheia de malícia.
Dei um sorrisinho.
- Eu não posso fazer isso com ela, Iasmim. - respondi, em voz baixa. - Não seria justo.
Iasmim me encarou. Decidi explicar.
- Ela é sensível. Eu vou embora. Eu namoro. - fui citando todos os fatos, sentindo o rosto dela se entristecer a cada um. - Eu não posso permitir que a gente se apegue. Eu não quero fazer isso com ela. Entende?
- Entendo. - ela respondeu, ao mesmo tempo em que elas retornaram à mesa e eu me calei.
Senti uma fisgada no peito.
(...)
Havíamos optado (graças a minha recusa de ir ao cinema) em ir ao Extra e comprar coisas pra fazer cachorro quente. Eu não iria comer, meu estômago estava fraco pelo excesso de bebida, mas eu iria acompanhar. Eu segurara a mão dela durante todo o trajeto. Eu sabia que estava fazendo algo errado, mas não conseguia evitar. Eu queria ficar perto dela. Queria aquele contato. Mesmo que tivesse que me conformar só com aquilo.
Na casa do João, eu fiquei longe. Queria faze-la entender que não iria acontecer. Mesmo que em parte eu quisesse aquilo. Mas em certo momento, parei de resistir e deitei no seu colo. Meu quadril doía de cólica. Suas mãos percorreram de leve o meu rosto e eu sorri por dentro. Por fora não demonstrava qualquer emoção. Respirei fundo. Não queria que ela entendesse errado. Chamei-a lá pra fora e expliquei porque não havia beijado ela de novo.
- Eu não posso fazer isso com você. - falei, depois de explicar tudo. - Você entende?
Ela fez que sim. Gemi internamente.
- Posso contar com a sua amizade? - insisti.
Novo aceno de cabeça. Meu coração apertou.
(...)
Minha mãe estava perto de me buscar. Estávamos sentadas ao lado do colchão de ar, e eu deslizava as unhas distraidamente pelas suas coxas. Ela sorria quase maliciosamente. Pela primeira vez, em dois dias, eu olhei bem para o seu rosto. Que sorriso lindo. E os olhos... Dei um sorriso involuntário. Meu celular tocou. Era minha mãe avisando que quando estivesse perto me ligaria. Ela levantou para buscar o celular no quarto. Segui. Estendi os braços e a apertei contra meu corpo, demoradamente. Assim como o beijo, encaixou perfeitamente. Fiquei algum tempo com ela daquele jeito.
- Ta aqui o seu abraço. - falei em voz baixa, fazendo-a sorrir.
Afastei com hesitação, ficando com o rosto a centímetros do seu. Respirei fundo e me afastei rapidamente. Puta que pariu. Pus os cabelos pra trás e saí do quarto rapidamente. Ela me seguiu. Em segundos, meu celular tocou. Minha mãe.
- Preciso ir. - falei, encarando ela e João. Cinth dormia profundamente.
- Te levamos lá, deixa eu só pegar meu celular. - ela respondeu, João acenando com a cabeça para reafirmar ao que ela dizia.
Ela voltou ao quarto. Me dei conta que não iria vê-la tão cedo. Ela iria embora no dia seguinte. Segui-a apressadamente. Ela estava de costas. Envolvi sua cintura com ansiedade e colei meus lábios aos seus com entusiasmo, embora o tenha feito suavemente. Ela suspirou involuntariamente, retribuindo ao beijo imediatamente. Não fora muito longo. Mas fora bom. Como na noite passada. Deus, eu estava sóbria. Que desejo impossível de reprimir. Desejo? Seria mesmo?
Despedi-me deles animadamente. O dia havia sido bom, apesar da ressaca e da dor. Entrei no carro e dei um sorriso. Um sorriso bobo. Pus o cinto de segurança e lembro bem da primeira coisa que passou na minha mente, enquanto eu dava uma risada baixa.
"To fudida".
terça-feira, 21 de maio de 2013
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Primeiro contato.
— Ela gosta de outra pessoa.
— Sério? Quem?
— Você não sabe mesmo?
— Não...
— Ai, Mari. Ela gosta de você. É você que ela quer.
...
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